terça-feira, 10 de novembro de 2009

Agronegócio brasileiro: muito além do IBGE

Na primeira quinzena do mês de setembro, o jornalista Juremir Machado, do jornal Correio do Povo, escreveu três artigos sobre o setor rural brasileiro e suas impressões sobre a atividade. Ao escrever sobre o assunto, Machado citou o deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS) e o acusou de ser “liberal comunista”.
Indignado, não só com a menção, mas principalmente com o conteúdo e as impropriedades textuais sobre o agronegócio, o parlamentar gaúcho enviou resposta ao veículo de comunicação. Os artigos de autoria do deputado foram publicados no dia 5 de outubro e nesta terça-feira, dia 10 de novembro.
Leia abaixo os textos de resposta do deputado:
Muito além do IBGE (publicado no dia 5 de outubro)
O mundo do agronegócio, meu prezado Juremir, vai muito além dos números levantados pelo IBGE. Existem outros institutos, fundações e empresas estatais que nos ajudam a entender melhor a imensa complexidade que é produzir alimentos no Brasil. Para entender o tema é preciso um pouco de história também. Comecemos por ela.
O endividamento rural começou no final dos anos 80, após a rodada do Uruguai e do Gatt, quando o mundo decidiu eliminar os subsídios. Alguns países seguiram a decisão, outros não. Estados Unidos, China, Japão, Índia e os da Europa continuaram subsidiando e não interromperam a prática. Todos os anos esses países aplicam US$ 400 bilhões em subsídios. Mais de 50% da renda rural dos produtores norte-americanos é bancada pelo governo.
No Brasil, dos anos 80 até hoje, os preços reais recebidos pelos produtores de grãos, fumo, fibras, carnes e lácteos, atualizados pelo IGP-M da FGV até agosto de 2009, caíram em torno de 60%. O mercado de defensivos, fertilizantes, diesel, grãos, máquinas (tratores e colheitadeiras) é altamente cartelizado. A carga tributária brasileira passou de 20% do PIB em 1980 para 36% em 2009. O produtor, quase sempre, não consegue repassar a diferença no preço do que produz. Bem diferente lá de fora, com a prática do subsídio.
Mais um aspecto da questão, que não é citado pelo IBGE: a alta concentração dos supermercados. somente quatro empresas abastecem 59% da população brasileira. Trata-se de um cartel que pressiona as indústrias de carnes, lácteos, grãos e frutas, que, por sua vez, descarregam essa pressão no preço pago ao produtor. Com essa prática, nem o consumidor é beneficiado.
Como se vê, os problemas da política agropecuária são lançados em um funil, que cai diretamente na cabeça do produtor. Só ele paga a conta. A questão é simples. Sem subsídio, o produtor está subsidiando o consumidor brasileiro. Talvez não conste no IBGE, mas, nos últimos 15 anos, o arroz teve apenas sete anos de preços positivos e o trigo apenas dois. Enquanto discutimos o óbvio, os suinocultores independentes estão perdendo de R$ 60,00 a R$ 70,00 por suíno produzido. Os criadores de gado de leite estão pagando para produzir, e o balde já está, literalmente, derramando na fazenda.
As assimetrias do Mercosul não constam no IBGE. Mas aí está um problemão, que merece bem um capítulo à parte, pois ele foi mais um funil posto acima da cabeça do produtor.
Ah, antes que me esqueça: produtor produz alimentos para sustentar a sua família, assim como quem produz notícias, tecido, papel, etc. São atividades profissionais. Simples assim.
Muito além do IBGE – II (publicado hoje)
Pois é, Juremir. Estávamos falando de Mercosul, lembra? Um acordo excelente para o Brasil, para quem produz automóvel, geladeira, fogão e outros bens duráveis. Tão bom, mas tão bom, que os agricultores vizinhos compram tratores e colheitadeiras, peças e arames produzidos no Rio Grande do Sul bem mais baratos do que o produtor brasileiro. Diferença que, em alguns casos, chega a 50%.
Como os nossos vizinhos são beneficiados com leis sociais diferentes das nossas e pagam menos pelos defensivos, o resultado é que eles exportam cada vez mais para o Brasil - arroz, alho, trigo, vinho, cebola. É uma questão de competitividade, que talvez não conste no IBGE, mas que foi subtraída de nós produtores brasileiros, principalmente dos gaúchos, em detrimento dos nossos vizinhos. Os orizicultores do Rio Grande do Sul, meu caro, perderam, só em 2009, mais de R$ 1 bilhão, pois plantaram ao custo de R$ 33,00 e venderam por R$ 27,00.
Os dados acima talvez constem no IBGE, mas é importante lembrar que 133 municípios gaúchos, que têm no arroz sua principal atividade econômica, também estão sofrendo. Assim como sofrem os municípios que dependem da triticultura, da uva, do alho e da cebola. O problema não é exclusividade do produtor.
Vamos à política de preços mínimos do governo federal, que tem efeitos irrisórios e insuficientes. Tomando o arroz como exemplo, com os valores citados acima, foram disponibilizados, neste ano, R$ 409 milhões para apoio à comercialização. Sabe o que isso representa? Amenizou o problema de menos de 10% de toda a safra gaúcha e catarinense.
O preço mínimo, a que você se refere, arrebenta com o trigo gaúcho e paranaense, com o milho do Centro-Oeste também. Preço mínimo não existe de fato. É um engodo. Se a comida está chegando barata à mesa de 190 milhões de brasileiros (incluindo a sua) é porque homens e mulheres do campo estão pagando para produzir. Repito: pagando para produzir.
A dívida agrícola é o resultado de anos de abandono do setor. Em 1995, o saldo da dívida agrícola era de R$ 25,7 bilhões. Hoje passa de R$ 130 bilhões. E esses valores são devidos aos bancos, não ao governo. É bom que fique bem claro. O total da dívida vem de 3.242.132 operações (2.141.465 delas da agricultura familiar).
Não consta no IBGE, mas algo está errado no sistema. Não existem liberais comunistas. Não queremos romper contratos. Não negamos as contas do setor. Não podemos é continuar pagando os defensivos, fertilizantes, diesel, impostos e juros mais caros do mundo e sermos responsáveis por 87% do superávit da balança comercial brasileira. Super-homem só existe no gibi. Nós, produtores rurais, somos de carne e osso. E só queremos produzir e ganhar o nosso sustento.
Leia os artigos do Juremir:
A Grande Mamata

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