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terça-feira, 8 de julho de 2008

[Artigo] Reflexões do Cooperativismo

Odacir Zonta*

Inicialmente, quero registrar a importante mensagem da Aliança Cooperativa Internacional, que congrega cerca de 800 milhões de cooperados, pela passagem do 86º Dia Internacional das Cooperativas e do 14º Dia Internacional das Cooperativas das Nações Unidas que é comemorado no primeiro sábado do mês do julho desde 1923, esperando que haja reflexão em todas as classes políticas e econômicas do Brasil.
Neste ano, a ACI assinalou como tema central: "Luta contra a mudança climática através das cooperativas". Ei-la:
"As cooperativas estão enfrentando a mudança climática numa escala e ritmo que mostram a sua liderança em numerosos países e setores no mundo. Embora algumas se comprometam a reduzir as emissões de gases das estufas, outras se esforçam para neutralizar os efeitos do carbono e todas trabalham para conseguir a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Afinal, a mudança climática é mais do que uma simples preocupação ambiental; tem um impacto inegável no bem estar econômico e social dos povos em todo o mundo. As cooperativas de todos os ramos lutam contra a mudança climática - por exemplo, as cooperativas agrícolas e de pesca estão revendo a utilização da energia usada na produção até o mercado, estão revendo suas emissões (carbono e nitrogênio), buscando a neutralidade ou ter, de fato, um impacto positivo na produção da energia verde ou de rações inovadoras que reduzam as emissões do gado; as cooperativas de consumo estão procurando reduzir as pegadas de carbono, não somente nas lojas, mas, também, em suas operações e de seus fornecedores e trabalham , ativamente, na difusão da educação aos seus membros e consumidores; as cooperativas habitacionais estão utilizando materiais de construção sustentáveis e edificando prédios ecológicos; os bancos cooperativos e as cooperativas de crédito estão incentivando investimentos em tecnologias eficientes em matéria de energia, oferecendo empréstimos hipotecários, ao consumidor e às empresas. As cooperativas de seguros estão encontrando formas inovadoras de manter baixos os prêmios e, ao mesmo tempo, fazer a cobertura que garanta as necessidades variáveis de seus membros, com vistas ao risco cada vez maior que ocasiona os fenômenos meteorológicos e os desastres naturais vinculados à mudança do clima; as cooperativas de eletrificação lutam para proporcionar uma energia limpa e sustentável como a eólica, a solar e a dos biocombustíveis. Muitas outras cooperativas trabalham, diuturnamente, para comprovar que são empresas sustentáveis, tanto econômico, social ou ambientalmente. Várias cooperativas tem assumido uma função de liderança, em escala mundial, associando-se ao Programa Rêde de Clima Neutro para o Meio Ambiente, das Nações Unidas, e se comprometeram com a plataforma de ação do Pacto Mundial de "Preservar o Clima", das Nações Unidas, e muitas estão ativas à nível de cada país. Além disso, e talvez o mais importante, são as ações tomadas, diariamente, pelas grandes ou pequenas cooperativas que estão conscientes de que, cada esforço, seja qual for o seu alcance, pode contribuir para diminuir o impacto da mudança climática. Entretanto, estas atividades não são novas. Afinal, há mais de 150 anos as cooperativas se esforçam para promover o desenvolvimento sustentável. Visto que as cooperativas se controlam democraticamente e operam segundo os valores e princípios, entre os quais a responsabilidade social e a preocupação com as comunidades, elas lutam para servir seus membros, não somente em termos econômicos, mas, também, num alcance maior, nos âmbitos social, cultural e ambiental. Hoje, a comunidade internacional está enfrentando o desafio da crise alimentar e da reconstrução dos danos causados pelos desastres naturais – ambos, ao menos em parte, podem se atribuídos à mudança climática. Os agricultores, consumidores e as comunidades diretamente afetadas por estas crises estão percebendo que as cooperativas estão prestando assistência, na difícil tarefa de adaptação aos impactos negativos da mudança climática. As cooperativas podem ajudar os agricultores a superar os desafios cada vez maiores na produção e podem proporcionar maior estabilidade ao setor agropecuário, respeitando os recursos ambientais. As comunidades que precisam reconstruir as economias locais, após as calamidades naturais, podem atender as suas necessidades, optando pela assistência mútua através das cooperativas e podem contar com a solidariedade baseada no princípio da cooperação entre cooperativas. Reconhecendo que a mudança de clima é um dos desafios mais críticos do nosso tempo, os membros da ACI firmaram, durante a Assembléia Geral de 2007, o compromisso de lutar contra as causas da mudança climática e reduzir suas conseqüências, e se tem conseguido um real progresso. Entretanto, é necessário uma atenção maior de todos, porque os desafios estão aumentando e as agressões contra o meio ambiente se multiplicam. Neste Dia Internacional das Cooperativas, a ACI faz um chamamento a todos os cooperativistas do mundo para que reforcem suas atividades de promoção do desenvolvimento sustentável e celebrem as ações que já estão contribuindo para diminuir a mudança climática e trabalhem em parceria para assegurar que as cooperativas fazem contribuições significativas para superar o desafio da mudança climática".
Os ambientalistas e os estudiosos do cooperativismo estimam que a atmosfera receba, anualmente, 7 bilhões de toneladas de gases tóxicos causadores do efeito estufa – o aquecimento artificial do planeta. E as emissões desses gases – o metano, o gás carbônico, o ozônio, o oxido nitroso, os clorofluorcarbonados, o oxido de enxofre, dentre outros, estão aumentando o potencial de estufa da atmosfera terrestre.
As conseqüências no longo prazo: calamidades naturais, variações bruscas de temperatura, secas severas, enchentes freqüentes, redução do ciclo das culturas agrícolas, queda de produtividade da agropecuária, e extinção de espécies e ecossistemas. E perdas entre 5% e 20 % do PIB mundial, por ano, causadas pelo aquecimento do planeta e seus nefastos resultados.
A Frente Parlamentar do Cooperativismo – FRENCOOP, do Brasil considera que as mudanças climáticas estão mais perto do que se imagina, não por sentimento de culpa das 50 mil lideranças cooperativistas do nosso país nem por negligencia dos 7 milhões dos cooperados brasileiros de todos os 13 ramos.
Relatório da ONU estima um aumento na temperatura média da Terra será entre 2 e 4,5 graus até 2050. O cooperativismo brasileiro deve continuar condenando os desacertos com os recursos naturais, repudiando a práticas anti-conservacionistas, que degradam o ambiente natural e defendendo a sustentabilidade econômica, social e ambiental.
A FRENCOOP do Congresso Nacional e a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) vêem apoiando as diretrizes estabelecidas pela Conferência do Rio, de 1992; e as ações preconizadas pelo Protocolo de Kyoto, de 1997, que somente entrou em vigor em 2005. Um importante acordo internacional assinado por 147 paises e esperamos que os EUA venham ratificá-lo não apenas por ser o maior país poluente (42% das emissões de gases), mas por solidariedade as demais Nações do mundo.
Nós cooperativistas brasileiros defendemos políticas de incentivo e subsídios ao uso de energia sem poluição e Métodos de Desenvolvimento Limpo (MDL); o fim do desmatamento ilegal; a implementação de projetos de vegetação em áreas degradadas; e, a universalização da educação ambiental por meio de alterações de comportamento da sociedade quanto ao consumo consciente, transporte alternativo, controle do lixo, dentre outras medidas.
Também, advogamos o aumento das solicitações do Brasil no mercado de crédito de carbono, administrado pela ONU. Seguindo um modelo que prevê a troca de emissão de gases por créditos ambientais, um negócio que deve movimentar até 2012, cerca de US$ 30 bilhões/ano. Vale ressaltar que nosso país está liderando o registro de projetos de créditos de carbono. Em 2007, certificou 37 projetos, à frente da Índia (28), México (15), Chile (10), e a China, com 7 solicitações.
Apesar desse esforço, a FRENCOOP alerta que as emissões de gases tóxicos devem ser reduzidas para evitar caóticas situações, o caos climático com ondas devastadoras, terremotos, furacões, maremotos, descongelamento das calotas polares e o aumento do nível dos mares, atingindo todos os 5 continentes – África, Ásia, Europa, América e Oceania.
Por fim, realço que a Frente Parlamentar do Cooperativismo do Brasil ratifica este notável documento da Aliança Cooperativa Internacional – ACI e esperam que todas as lideranças políticas, empresariais, dos trabalhadores e de outros segmentos da sociedade mundial, possam valer suas virtudes para sobrepor ações criminais e isoladas que destroem a natureza – dádiva de Deus que merece ser respeitada por todos desta geração e das futuras, abominando o egoísmo de falsos lideres e ressaltando a soberania dos povos em favor da humanidade.
* É deputado federal e presidente da Frente Parlamentar do Cooperativismo no Congresso Nacional.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Jornal O Globo expõe, em título de matéria, visão arcaica e preconceituosa contra a Agricultura

OPINIÃO
A edição nº 27.323 do Jornal o Globo, publicada de hoje, 28 de maio de 2008, expõe uma visão arcaica e preconceituosa da agricultura brasileira e sobre aqueles que produzem todo o alimento consumido pelos cidadãos brasileiros. A matéria da página 24, da caderno de Economia sofre o peso de um título extremamente infeliz: VEM AÍ UM NOVO PERDÃO PARA OS AGRICULTORES.

A matéria escrita pela jornalista Eliane Oliveira em nenhuma linha informa que a renegociação em andamento prevê PERDÃO de dívida. Sem dúvida nenhuma, Eliane foi bastante fiel ao acontecimento e retrata no seu texto exatamente o fato realizado ontem, 27, no Palácio do Planalto: o lançamento oficial da Medida Provisória que estabelece estímulo à liquidação ou regularização de dívidas originárias de operações de crédito rural.

Não posso crer, portanto, que a experiente profissional, que acompanha diariamente os assuntos políticos e econômicos em Brasília, seria a autora do título. Ela não cometeria tamanha gafe.

Quem conhece o assunto, repórteres que atuam na cobertura jornalística desse setor produtivo, há muito tempo deixou de retratar ao seu leitor – seja ele urbano ou rural -, uma visão tão obsoleta, que nos remete a notícias veiculadas nas décadas de 80 e 90, período em que as mazelas do setor agrícola não eram totalmente conhecidas, nem havia o volume de informações que há hoje facilitando uma análise isenta dessa realidade.

Como assessora de imprensa da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, acompanho o assunto diariamente. Frequentemente, tem-se levado ao conhecimento dos veículos de comunicação os problemas que o setor agrícola enfrenta provocados, muitas vezes, por fatores externos à atividade.

Além de promover um estreito e respeitoso relacionamento entre os parlamentares da Comissão de Agricultura e a imprensa nacional, buscamos oferecer informações corretas, fidedignas. Em geral, orientamos os jornalistas sobre o atual cenário do agronegócio, a conjuntura econômica que afeta o setor, e os fatores que impactam, de uma forma ou de outra, na produção agrícola brasileira, além da cobertura completa do Parlamento em relação às discussões sobre o agronegócio.

Fazemos isso com muito critério, produzindo textos, elaborando dados, números, descrevendo contextos que promovam um maior entendimento dessa realidade, buscando alcançar transparência e levar a verdade ao leitor/telespectador/ouvinte/internauta.

Vemos, dia-a-dia, crescendo o número de jornalistas interessados em conhecer o setor com mais profundidade, não se deixando influenciar por opiniões pessoais ou visões meramente superficiais. São poucos, raríssimos os jornalistas que, ainda, adotam a postura cômoda de copiar chavões jornalísticos, de reproduzir ideologias sem, ao menos, questioná-los.

O título da matéria publicada hoje expõe, acima de tudo, um grande e profundo preconceito contra o setor agropecuário. Enquanto jornalista, revolta-me abrir um jornal importante como o Globo e ver o meu trabalho, o meu esforço de entendimento cair por terra, aniquilado por uma mente mesquinha e preguiçosa.

O TÍTULO MENTE, O TÍTULO ENGANA, O TÍTULO IMPINGE AO PRODUTOR RURAL A PECHA DE CALOTEIRO. E O PIOR: O LEITOR CRÊ. CRÊ PORQUE ACREDITA QUE O JORNALISMO RETRATA SEMPRE A VERDADE.

Indigna-me ainda mais porque sou filha de produtor rural. Há 43 anos milito na agricultura. Conheço a maioria dos problemas que o setor enfrenta, dentro e fora da porteira. Em consideração aos 50 anos que meu pai labutou (trabalhou duramente e com perseverança) sobre um velho trator, tentando vencer o tempo, a terra bruta e o frio da madrugada com o único objetivo: plantar e colher alimentos, é que não posso sufocar minha profunda indignação.

O editor que, por infelicidade, escreveu o título sugerindo PERDÃO das dívidas dos produtores rurais brasileiros deveria ser ele o primeiro a pedir perdão a toda a classe de produtores rurais, principalmente àqueles pequenos e médios agricultores, por aprofundar, gratuitamente, o fosso da ignorância que existe sobre o setor rural brasileiro.

Brasília, 28 de maio de 2008
Guida Gorga
Assessora de Imprensa
Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados

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